terça-feira, abril 25, 2006

Regresso da energia atómica

O nuclear não morreu: há 24 reactores em construção no mundo inteiro, essencialmente na Ásia. Mas a crise energética mundial pode vir a incentivar esse processo e levar a um regresso em força do nuclear à Europa Ocidental e aos EUA. Apesar da oposição da opinião pública.


INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE

«QUANDO, em Janeiro passado, a Gazprom interrompeu o fornecimento de gás natural à Europa, na sequência do diferendo sobre preços entre o Kremlin e a Ucrânia, o ministro francês da Indústria, François Loos, foi assolado por telefonemas de outros responsáveis europeus, convencidos de que a França, onde o nuclear cobre 80 por cento das necessidades eléctricas, era a mais bem colocada para lhes falar de segurança energética. «Qualquer coisa está a mudar», declarou o ministro francês, que tinha previsto um encontro com uma dezena de homólogos europeus, no mês de Fevereiro. «Desde o incidente russo, a segurança energética tornou-se a grande prioridade política. Hoje, as pessoas começam a reconsiderar todas as opções disponíveis, incluindo o nuclear».

Com efeito, a crise russa voltou a lançar o debate nos países ocidentais, que se perguntam se não seria altura de dar ao nuclear um lugar de destaque. A subida em flecha da procura energética, as mudanças climáticas e o receio de ver os fornecedores fecharem as condutas apoiam os argumentos segundo os quais o recurso ao átomo é mais indispensável do que nunca. Este princípio traduziu-se já por uma proliferação de centrais nucleares, de uma ponta à outra da Ásia e inspira muitos novos projectos. Mas na Europa como nos Estados Unidos, a opinião pública, ainda traumatizada pela recordação dos acidentes de Chernobil e de Three Miles Island [nos EUA, em 1979], obstina-se em considerar que o nuclear é perigoso, impopular e proibitivo.

«Fala-se muito de um regresso em força do nuclear, mas é uma ilusão, é um debate completamente estéril», considera Mycle Schneider, consultor do sector energético ao serviço do Governo alemão, da Greenpeace e de diversas grandes multinacionais. Já Fatih Birol, economista-chefe na Agência Internacional de Energia (AIE) em Paris, está convencido de que a controvérsia suscitada pela Gazprom tem fortes probabilidades de favorecer a hipótese de um regresso do nuclear. «Não há nada como um choque eléctrico bastante real para arrumar as ideias», comenta.

A ideia de reduzir a dependência em relação aos fornecedores estrangeiros e de controlar a sua produção própria graças a uma rede nacional de centrais nucleares não é nova; mas há 20 anos que as perspectivas da indústria nuclear não pareciam nada promissoras. E depois dos atentados do 11 de Setembro nos Estados Unidos, teme-se ainda mais que os terroristas possam atacar instalações nucleares, atirando, por exemplo, aviões contra reactores.

Contudo, desde há três anos, reapareceram em certas regiões do mundo sinais precursores de um renascimento do nuclear: nada menos de 24 reactores estão actualmente em construção, a maior parte em países asiáticos fortemente povoados, que necessitam de energia barata. Daqui até 2020, a China conta acrescentar 32 reactores aos actuais 11 que já possui; a Índia, que dispõe de 14 centrais nucleares, espera triplicar a sua capacidade nos próximos seis anos. O Japão, a Coreia do Sul, a Rússia, a Argentina e a Ucrânia aumentam, igualmente, a sua infra-estrutura nuclear.

Os estados europeus e da América do Norte, alguns dos quais há várias décadas que renunciaram ao nuclear, voltam a interessar-se pelo assunto. A Finlândia está a dotar-se de um reactor de 1600 MW, que será a maior central nuclear do mundo e a primeira construída nos últimos dez anos no hemisfério ocidental. A França, primeiro consumidor mundial de energia nuclear por habitante, prevê igualmente aumentar em breve uma nova unidade à sua rede. Na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, as autoridades fazem constar que poderá ser construída uma nova geração de centrais, nos próximos anos. O debate acende-se mesmo na Alemanha, país que se empenhou oficialmente na progressiva redução do seu recurso ao nuclear. Apesar de os responsáveis políticos ainda não falarem de voltar à opção nuclear, insistem claramente na necessidade de prolongar a exploração dos reactores existentes.

Segundo Heinrich von Pierer, presidente do Conselho de Administração da Siemens, que detém um terço do capital da Framatome («joint-venture» que construiu o reactor finlandês com o gigante nuclear público francês Areva), a energia atómica poderia lançar diversos desafios à escala planetária: contribui para limitar a alteração climática, porque não emite gases com efeito de estufa e reduz a dependência dos Estados em relação a fornecedores versáteis.

Convencer as opiniões públicas

De acordo com a AIE, a dependência dos Estados Unidos, que compram metade da sua energia ao estrangeiro, subirá para 77 por cento, até 2030; a da China passará de 35 por cento para 82 por cento, enquanto a da Europa atingirá os 90 por cento. «Não temos como excluir qualquer fonte energética», explica Pierer. «Vamos necessitar de tudo aquilo a que pudermos recorrer, incluindo o nuclear». O mais difícil será, sem dúvida, convencer as opiniões públicas. A consciência colectiva continua profundamente marcada pelos receios com o terrorismo, os acidentes e os resíduos nucleares — que podem permanecer activos até 100 mil anos.

Uma sondagem da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), realizada em Dezembro de 2005 em 18 países, revelou que cerca de 60 por cento dos inquiridos se opunha a novas centrais nucleares. Mesmo em França, 16 por cento consideravam que as centrais nucleares deviam ser encerradas e 50 por cento dizia-se desfavorável a novas construções.

«O principal obstáculo à energia nuclear é a aceitação pública e política», sublinha Peter Haug, director-geral da Foratom, a associação internacional pan-europeia que representa os maiores intervenientes europeus do sector nuclear, entre os quais a EDF [Electricidade de França] e a British Energy. «É absolutamente necessário dissipar as inquietações e as angústias das pessoas que pensam que tudo o que é nuclear é muito perigoso».

Mas não são essas as únicas dificuldades. Se a exploração de uma central nuclear é relativamente económica, a sua construção, em compensação, é muito cara: o preço do combustível nuclear é cerca de 85 por cento mais baixo do que o carvão ou o gás; mas para construir um reactor como o da Finlândia, há que contar com 3,2 mil milhões de euros, ou seja, dez vezes mais do que para uma central a carvão ou a gás.

Mycle Schneider recorda que o investimento se torna ainda mais considerável porque, a partir do momento em que se consegue o aval das instâncias políticas, são precisos pelo menos 10 anos para fazer a ligação à rede eléctrica. Além disso, na altura em que a mais recente geração de reactores foi instalada na Europa, antes da desregulamentação do mercado energético, eles foram fortemente subsidiados pelos poderes públicos. Hoje, seria necessário apelar a investimentos privados para garantir o financiamento.

Na AIEA, contudo, Alan McDonald sublinha que cada país tem de encontrar a solução que melhor se lhe adapta. Para a Noruega, que dispõe de recursos hidroeléctricos significativos, bem como de reservas de petróleo, o nuclear pode nunca ser rentável. Em compensação, países como a Coreia do Sul ou o Japão, que importam o essencial dos seus hidrocarbonetos, ou para outros, como a Finlândia, com créditos muito baixos para emissões de carbono, a opção apresenta-se como muito mais económica.

«Cada país terá de fazer os seus próprios cálculos de rendibilidade», explica. «Mas a relação qualidade-preço pode apoiar uma dose de nuclear no leque das instalações de produção energética».»

Katrin Bennhold e Dan Bilefsky


quarta-feira, abril 19, 2006

Matança de Lisboa - 500 anos

"Amanhã relembra-se o massacre de mais de quatro mil lisboetas, nos dias 19, 20 e 21 de 1506. As vítimas foram na sua maioria judeus, convertidos à força, mal-baptizados, cristãos-novos, suspeitos de judaízarem às escondidas, ou pessoas que os assassinos tomavam por pertencer a qualquer destas categorias.
Seguindo a sugestão do Nuno Guerreiro n'A Rua da Judiaria estarei no Rossio, esta quarta-feira, para acender uma vela em memória desses nossos antepassados. Pode ser a qualquer hora, mas (segundo me dizem) será às 19h00 que mais gente estará no local.
Para mim, pessoalmente, será também um voto de esperança numa Lisboa com memória, acolhedora e generosa para com as suas minorias. No passado e, cada vez mais, no futuro.
Deixo a seguir o meu texto do Público sobre este assunto.

A matança
Na próxima quarta-feira, dia 19 de Abril, cumprir-se-ão quinhentos anos sobre o dia em que dois frades dominicanos percorreram a baixa de Lisboa incitando o povo contra os “judeus”. Quinta-feira, dia 20 de Abril, terão passado quinhentos anos, quase silenciosos, sobre o massacre de quatro mil lisboetas. Sexta-feira, dia 21 de Abril, fechar-se-ão quinhentos anos sobre a página mais vergonhosa e mais esquecida da história de Lisboa.
Era o ano de 1506 e sofria-se com a seca. O rei Dom Manuel estava em itinerância pelo Ribatejo. Da seca vinha a fome; a fome e a peste matavam; em Lisboa morrera já mais de um cento. O povo devoto reunia-se nas igrejas para pedir o fim daquelas penas. As crónicas relatam pouco mais ou menos o mesmo. Era domingo de Pascoela, uma semana depois da Páscoa. Parece que na igreja de São Domingos se viu um crucifixo iluminado, que alguns tomaram por milagre. Parece que um homem que ali se encontrava sugeriu que aquela luz era coisa natural, provinda de uma das janelas. Parece que este homem era cristão-novo; foi ali espancado, despedaçado e depois arrastado pelas ruas. Os frades saíram também, proclamando que a culpa da fome e da peste estava em tolerar-se a presença de judaízantes entre os cristãos. Correu a notícia de que quem matasse os “judeus” da cidade teria cem dias de absolvição dos seus pecados.
Nos dias 19, 20 e 21 de Abril de 1506 chacinaram-se mais de quatro mil lisboetas. Não parou a seca, nem a peste.
Oficialmente já não havia judeus em Portugal. Tinham sido convertidos à força uma década antes, dando origem ao nascimento da categoria de “cristãos-novos” de que se suspeitava que “judaízassem” às escondidas, em casa. Eram os “mal baptizados”, como lhes chamava o lisboeta Samuel Usque, nascido pouco antes do massacre, judeu português que (ao contrário do que sucedera durante séculos) só pôde continuar a ser judeu e português fugindo para o estrangeiro.
O escritor e cronista Garcia de Resende, que viveu durante os reinados de D. Afonso V, D. João II, D. Manuel e D. João III, foi contemporâneo dessa fase crucial em que Portugal deixou de ser um reino multirreligioso. Conta como no reinado de D. João II os judeus e mouros participavam da vida da comunidade, por exemplo organizando festas quando havia boda real: “sempre nas festas reais / festa de mouros havia / tão bem feita se fazia / que não podia ser mais”. Com palavras de cristão devoto, aprova a conversão forçada dos judeus e a expulsão quase completa dos muçulmanos portugueses: “Os judeus vi cá tornados / todos num tempo cristãos / os mouros então lançados / fora do reino passados / e o reino sem pagãos”. E horrorizado descreve a matança de Lisboa, menos de dez anos depois: “mais de quatro mil mataram / dos que houveram às mãos / uns deles vivos queimaram / meninos despedaçaram”.
Para quê comemorar a matança de Lisboa?
Há uma história multiétnica e multirreligiosa de Portugal que os portugueses não conhecem. Para o mal e para o bem: poucos sabem que houve em Lisboa a matança de 1506 como poucos sabem que era em Lisboa o maior bairro negro da Europa, o Mocambo, que se estendia para lá dos olivais de São Bento em direcção aos actuais bairros da Madragoa, da Lapa e de Santos-o-Velho.
Comemorar não é festejar; é “lembrar em conjunto”. Há poucos anos acabou o ciclo das comemorações dos Descobrimentos e parece que o país ficou sem história para recordar. Entretanto, já passaram os 250 anos do Grande Terramoto, lamentavelmente desaproveitados no seu potencial pedagógico e preventivo. E agora? Passarão vergonhosamente esquecidos os 500 anos daquela que foi, na história de Lisboa, a pior manifestação de violência colectiva em tempo de paz?
No blogue do jornalista Nuno Guerreiro [http://ruadajudiaria.com, cuja consulta recomendo para mais informações sobre a matança de 1506] lançou-se a ideia de ir ao Rossio, no dia 19 de Abril, acender quatro mil velas em memória das vítimas. Eu vou estar lá. É o mínimo que se pode fazer, e mesmo assim houve na blogosfera quem reagisse com desconforto. De facto seria maravilhoso se a nossa história fosse sobrenaturalmente isenta de episódios trágicos como este. Não é. Estavam antepassados nossos entre os assassinos e entre as vítimas; isso deveria bastar-nos.
Amanhã é domingo de Páscoa. Os jornais vão assinalar o facto, o Cardeal Patriarca vai rezar missa; as televisões não vão parar de transmitir filmes sobre um homem morto há dois mil anos. Para sermos inteiros, convinha que não esquecêssemos outros quatro mil, assassinados cruel e estupidamente em seu nome, há quinhentos anos."
http://ruitavares.weblog.com.pt/

sábado, abril 01, 2006

É o dia dele

Hoje, e para assinalar o 1 de Abril, o executivo camarário reunirá para fazer um ponto de situação das promessas eleitorais.
Por se tratar de uma reunião extraordinária e sobretudo por decorrer num fim de semana, todos irão em traje informal.
A ordem de trabalhos é constituída por um único ponto:
- Leitura do programa eleitoral.
Todos os presente têm como desafio, ler a totalidade do documento até ao fim sem se desatar a rir.
Escusado será dizer que o Presidente será o único a conseguir fazê-lo. Além de o ler até ao fim sem vacilar, dará largas à sua já lendária criatividade em prometer de improviso.

Verdade seja dita, em alguma coisa o homem é especialista.